
O ar gélido bateu-me em cheio na cara quando o Rajid entreabriu a porta de acesso à placa de estacionamento. Com o tempo, tinha-me habituado a apreciar aquele vento cortante a contrastar com o calor recomfortante do fato de voo e blusão. O Rajid, lábios cortados e dedos crispados pela submissão à natureza de quem escolhe viver a 3 quilómetros de altitude, fez questão de me acompanhar na inspecção visual exterior do meu avião, coisa que faria também, e em seguida aos meus companheiros de aventura. Para trás tinha ficado um convívio memorável, com ele e sua família. As histórias dos aventureiros que por ali teimavam em aparecer, dos aviadores intrépidos que continuavam a insistir pousar o seu "ferro" naquela curta tira de relva irregular, tantas vezes a jogar às escondidas por entre as nuvens. Até do Yeti, lhe ouvimos a contança.

Para ambos, Rajid e visitantes, um oásis nas respectivas vidas. Para nós o porto seguro, a possibilidade de fazer a afinação que fazia falta, de arranjar a peça que acusava desgaste. Para ele, uma aberta no céu carregado, as histórias e as notícias do mundo que apenas podia advinhar, por detrás dos montes altos que o rodeavam.
Pousei a mão no puxador e abri a porta do meu Howard 500. O interior, escuro e frio, aguardava-me suplicando que lhe desse vida, pronto a voltar a ser a minha casa. Voltei-me, despedi-me do Rajid com um "Até breve" que só por acaso não será um "Até nunca mais". Fechei a porta com aquela espécie de nostalgia de quem deixa o resto do mundo lá fora. Como se apenas tivesse sobrado eu e a máquina. A fiel máquina. Mas é uma sensação que desaparece depressa, com o sentar no posto de pilotagem. Há muito que fazer e, especialmente nas montanhas, a preparação do avião e do voo é fundamental. Liguei as baterias e fui-lhe devolvendo a vida aos poucos. Verificar os rádios, as cartas de navegação, os mapas do relevo, o combustível, uma espreitadela à manga de vento para confirmar a pista para a descolagem. Tudo isto levou o seu tempo, o suficiente para o Rajid se despedir dos outros e voltar, já equipado de extintor, para junto do meu motor direito, o nº 1, pronto a assistir ao seu arranque. Rodo o punho de indicador espetado na vertical, fazendo o sinal universal de colocação do motor em marcha. Regulo a manete de mistura e dou à ignição. O motor parece tossir uma ou duas vezes, o avião estremece em consonância, o hélice roda e finalmente um estremeção mais forte conduz a uma vibração permanente acompanhada do maravilhoso ruído dos seus 2500 cavalos. Repete-se a história para o motor nº 2, o da esquerda, e em breve tenho ao alcance das mãos cerca de 5000 cavalos de potência para usar.
O Rajid confirma de polegar espetado no ar. Faço as verificações pós-arranque do motor e é altura de estabelecer o contacto rádio com os camaradas de voo. Acordamos a sequência de descolagem e direcção de voo inicial. É fundamental ganhar altura rapidamente pois a camada de nuvens deixa pouca visibilidade para as escarpas que rodeam o vale, por onde nos vamos meter, até conseguirmos de lá sair qual naufrago que finalmente aflora à tona da água.
Cedo, chega a minha vez de alinhar na pista, lançar-me numa última verificação dos instrumentos e um último aceno ao Rajid que valentemente assiste à nossa saída. Empurro as manetes, os motores explodem de força, o aparelho projecta-se para a frente, sobre a relva, a devorar cada vez mais lestamente o terreno irregular que me faz temer por um trem partido. E a pista tão curta, a acabar já ali, a dar vontade de acelerar mais. Por fim, é atingido o momento de puxar o manche e de um momento para o outro os saltos na relva dão lugar à suave vibração induzida pelos motores e à aceleração vertical que se faz sentir sobre o corpo, empurrando-o na cadeira, tornando os movimentos um pouco mais pesados. A terra, em baixo, e as montanhas ao lado parecem sentir a falta da máquina, estendem braços a puxá-la, aceleram ventos a abaná-la na ânsia de a recuperar, mas o engenho do Homem vence outra vez, e alguns minutos depois estabilizo o voo, em velocidade e altitude de cruzeiro, acima da camada de nuvens que abafa os apelos das sereias dos vales.

A distância a percorrer não é grande e, a caminho de Katmandou, paragem final da nossa aventura, vamos deixando as montanhas para trás. Advinho-lhes a lamúria, fomos companheiros ao longo de meses, uma quase atracção fatal pela beleza da Natureza que se não for tratada com respeito cobra-nos o castigo. Pelo rádio, trocamos as memórias e recordações, os momentos altos de adrenalina das pistas enevoadas, curtas, escorregadias e das gentes que por lá encontrámos, sempre com um sorriso cúmplice de boas-vindas. Tudo isso ficava agora para trás, nas quase 6500 milhas percorridas desde o Gerês de onde descolámos numa soalheira manhã. Simultaneamente muito, e pouco.
Agora era o tempo de preparar a aproximação à capital do Nepal. Percorrer as obrigatórias listas de verificação, ligar as luzes de aterragem, baixar os
flaps e o trem de aterragem, reduzir a velocidade, descobrir a pista no meio do nevoeiro desta vez ajudado pela navegação-rádio e, finalmente, o pouso na pista seguido de uma suave travagem como que a prolongar o trajecto, a querer fugir da saída, a adiar o fim da aventura. Mais uns minutos e o avião está estacionado na placa, motores desligados. Fecho-lhe a porta, acaricio-lhe a fuselagem e olho para os meus companheiros. O silêncio-rádio, repete-se agora em terra. Mas não precisamos de dizer palavra - encontro no Bar. Não sabemos se para comemorar se para afogar a nostalgia. Tudo. Um bocadinho de tudo.
...
É assim... aqui em casa voa-se onde nos leva a imaginação.